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Colégio e Cursinho COC Vila Yara | EDIÇÃO 03/2018

Ed.02

BATE-PAPO COM | Compartilhando experiências

Entrevista com Vinícius De Bragança Müller e Oliveira

Por Diego Escanhuela

Professor de História Econômica na Insper e Doutor pela USP

A profissão de professor é na maior parte das vezes tratada de forma romantizada. O professor em muitos casos é desvalorizado tanto no âmbito salarial quanto social. É possível pensar na relação destes dois fatores? A romantização da profissão pode gerar desvalorização?

Sem dúvidas. A romantização se transforma numa missão; ou seja, associação entre o trabalho docente e algo como ‘mudar o mundo’. Algum grau de encantamento e de missão transformadora pode ser estimulante, principalmente entre os jovens. Contudo, o outro lado – perigoso – disso é uma desvalorização profissional. Algo como “professor é vocação, não profissão”. Vocação quem tem é padre, pastor, etc. Professor é profissão.


Qual é a sua trajetória profissional e acadêmica?

Sou Bacharel em História, com Mestrado em Economia e Doutorado em História Econômica. Comecei a carreira ainda como estudante de graduação em História como estagiário no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Era 1994 e poucos meses antes a documentação do DOPS (Departamento de Ordem Politica e Social) havia sido liberada à pesquisa. Fui estagiário, portanto, para a organização desta documentação. Logo depois, no mês que completei 22 anos de idade, fui contratado como estagiário em um Cursinho Pré-Vestibular. Assistia às aulas dos professores para aprender como dar aulas. Logo depois comece a dar plantão de dúvidas de História no mesmo Cursinho. Assumi como professor, no ano seguinte, algumas turmas. Logo que completei 23 anos. Ainda, nesta época, fui pesquisador da Folha de São Paulo. Fazia as pesquisas aos jornalistas para que eles pudessem escrever as reportagens e artigos do jornal. Mas, após alguns meses decidi me dedicar apenas à atividade docente. No início, eram aulas de Cursinho, com salas lotadas. Depois assumi aulas no Ensino Médio do COC- Vila Yara. Pouco tempo depois, em 2003, já era coordenador de Humanas do Colégio. Assumi, na sequencia, a coordenação do Ensino Médio e a Gerência da Escola. Concomitantemente, continuava com aulas em Cursinhos Pré-vestibulares, além de fazer meu mestrado em Economia. Com ele, assumi aulas em faculdades, especialmente na FECAP. Onde leciono até hoje. Logo depois comecei o Doutorado em História Econômica. No primeiro ano de Doutorado, assumi aulas no Insper, onde também continuo até hoje. Ainda, neste período, fui coordenador de Ensino Médio de outro colégio em São Paulo, a Escola Lourenço Castanho e coordenador do vestibular do Insper. Também fui autor de material didático tanto de Ensino Médio quanto de Pré-Vestibular.

Atualmente, além de professor das duas instituições de ensino superior (FECAP e INSPER), sou professor do Pré-Vestibular INTERGRAUS, e de cursos de pós-graduação do CLP (Centro de Liderança Pública) e da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Também sou colunista do blog O Estado da Arte, do jornal o Estado de São Paulo.


A partir de sua experiência, plural e variada, em quais áreas profissionais os popularmente chamados de “professores especialistas” poderiam atuar para além da sala de aula?

Muitas. Além da sala de aula, pesquisa, editoras, veículos de comunicação, consultoria empresarial, museus, órgãos públicos. Existem muitas possibilidades. Mas, como toda a vida profissional, tem que estar atento e disposto às novas configurações que o trabalho exige. Estudar sempre e para sempre e, mais importante, entender que além da especialização, há uma série de competências que as áreas do saber do professor especialista contemplam. São elas, as competências, que servem de ‘ponte’ ao mundo do trabalho. Por exemplo, o professor de História não pode saber só História, mas falar muito bem em público, organizar informações que aparentemente são desconexas, escrever bem, e entender a linguagem de outros profissionais e de outros meios de comunicação. Do Jornalista, do Publicitário, do Editor, da TV, etc.


Dentro do contexto de mudanças de profissões e do mercado de trabalho, em sua visão, qual será a relevância profissional dos professores nos próximos anos?

Imensa se os professores estiverem dispostos e preparados para criar essas pontes. A diferença, hoje, é a tecnologia associada ao conhecimento. São essas duas questões que devem envolver o trabalho do professor. O conhecimento é cada vez mais valorizado, o uso adequado deste conhecimento também. Educação é a chave para a organização e desenvolvimento de qualquer sociedade, inclusive do ponto de vista econômico. O Brasil demorou, mas já entendeu isso.


Sua trajetória acadêmica o colocou em contato tanto com a universidade pública quanto particular. Ainda que o universo seja amplo e saibamos que falar em “pública e particular” junta no mesmo prato diversos tipos de instituições, é possível estabelecer padrões e sentidos de comparação entre as instituições?

Em partes, sim. As Públicas ainda guardam certa diferença em relação à pesquisa e à atração que exercem sobre bons professores. Por outro lado, as instituições privadas passam por um processo de melhoramento, até porque a sociedade já a pressiona por isso. Temos inúmeros bons exemplos de instituições privadas de alto nível no país. Além das tradicionais, como Mackenzie e a PUC, o INSPER, a FECAP, a FGV, A ESPM, O Instituto Singularidades, entre outras.


Sua produção acadêmica é marcada pelos estudos e leituras relacionadas ao século XIX, no Brasil Império. As crises atuais da república atual, de alguma maneira podem ser explicadas ou ao menos debatidas a partir de questões do passado? Enfim, estudar o passado ajuda a melhorar o presente?

Certamente. O passado não se repete, mas indica quais são as permanências e os valores fundamentais de uma sociedade. Ao estudar o século XIX, por exemplo, descobri que os gastos com educação básica nas regiões brasileiras eram muito diferentes e que as regiões que investiam mais são mais desenvolvidas. Isso pode explicar parte das diferenças entre as regiões do país, problema ainda presente de forma muito agressiva em nossa sociedade.


Sua produção acadêmica é marcada pelos estudos e leituras relacionadas ao século XIX, no Brasil Império. As crises atuais da república atual, de alguma maneira podem ser explicadas ou ao menos debatidas a partir de questões do passado? Enfim, estudar o passado ajuda a melhorar o presente?

Estudem. Parece óbvio, mas não é. Essa área ainda é marcada por duas questões que atrapalham: a tendência em acharmos que basta vontade e o vicio que muitos tem em achar que o professor é um militante. Nenhum dos dois. Vontade é o princípio, mas estudo – tanto de sua especialização quanto das práticas pedagógicas – é muito importante. E, acima de tudo, profissionalismo. Sou professor. Nem missionário, nem militante.