Leitura e análise de documento histórico


No 3º bimestre, os alunos do 2º ano do Ensino Médio estudaram as sobreposições sociais e políticas do momento de formatação e elaboração do Estado Brasileiro. As discussões de sala, e também, nossas leituras tinham como objetivo orientar a visão de todos acerca das plurais interpretações sobre o referido período, pois seja, a Independência do Brasil.
Como já é prática, trabalhamos neste bimestre com uma Análise Documental. Após algumas aulas expositivas, os alunos leram em suas casas excertos de um livro de José Bonifácio de Andrada, figura destacada do processo de independência do Brasil.
Cada 2º ano leu uma carta de Bonifácio, todas elas foram escritas na década de 20 do século XIX, período subseqüente a independência, marcado pelo profundo desentendimento de D. Pedro I e José Bonifácio.
Todas as cartas contidas no livro trabalhado, Projetos Para o Brasil, caminham em um sentido comum, um grande e erudito personagem da história brasileira, agente direto das movimentações da independência vendo-se isolado e excluído do processo político do Brasil através do exílio.
A orientação dada na roda de  leitura e discussão, durante todo o desenvolvimento da atividade, era para despertar nos alunos a sensibilidade de identificar a mentalidade do homem e eventos da história em documentos produzidos nos respectivos períodos.
Ler um documento do século XIX e identificar em sua elaboração conteúdos discutidos em sala de aula é uma habilidade valiosa e ampla, muito útil para o enfrentamento de provas que cobram a interpretação e o posicionamento crítico, como o ENEM e outros vestibulares de ponta,  porque desenvolvem nos alunos uma visão de mundo questionadora e reflexiva.
A leitura gerou um relatório e uma análise documental entregue após alguns dias. Para exemplificar o trabalho, selecionei três textos que se destacaram. Sugiro aos pais, alunos e todos os outros visitantes deste sítio, que leiam estes textos, para identificar a qualidade destas elaborações que apenas representam destaques, e não exceções.
Boa leitura!
Professor Diego Escanhuela (História).
 
Análise Documental
Através da análise do excerto do livro “Projetos para o Brasil” escrito por José Bonifácio, nota-se as conjunturas e as crises que marcaram o Primeiro Império. Neste excerto também são retratados os fatores que contribuíram para que o autor deste livro e importante político da época, José Bonifácio, de amigo pessoal e braço direito de D. Pedro I no processo de indepedência se tornasse um dos maiores críticos do imperador.
As críticas feitas a D. Pedro I estão relacionadas à principal marca do Primeiro Império - o autoritarismo do imperador. Tal crítica pode ser observada quando o autor refere-se a este como um ditador que governa com o cetro de ferro e pisa nos direitos e na felicidade do povo.
O caráter absolutista de D. Pedro I  não é somente observado através das críticas e acusações feitas por José Bonifácio, mas também, através dos episódios históricos. Tais como a dissolução da Assembléia Constituinte, em 1823, na chamada Noite da Agonia. É importante citar que foi neste episódio em que o autor de excerto analisado se opôs pela primeira vez ao imperador e por isto foi exilado do Brasil, criticando as medidas extremistas do governante que, a partir de então, foram se tornando mais frequentes.
Como já é sabido, José Bonifácio não considera D. Pedro I um apto governante para o Brasil, mas como um conhecedor das conjunturas brasileiras aponta as principais características para um bom governo, dizendo que este deveria ser forte e centralizado, de forma que pudesse promover o crescimento econômico e defender os benefícios e características adquiridos no período em que a sede do governo português esteve instalada no Brasil. E não representado por um ditador como D. Pedro I que segundo o autor, só sabe derramar sangue e fazer escravos.
Ao mencionar o derramamento de sangue, José Bonifácio refere-se à Guerra da Província da Cisplatina e aos excessos que se deram com o fim da Confederação de Equador, ou seja,  refere-se às perdas humanas da Guerra e à repressão violenta ao pequeno movimento no nordeste que resultou na condenação e morte dos seus líderes. Além disso, José Bonifácio, retrata a complexa questão da escravidão no Brasil. Esta complexidade está relacionada à contradição que o Brasil vivia, a permanência do sistema escravista mesmo depois de fazer uma constituição (caracterizada pelos ideais Iluministas) exemplifica uma completa contradição a qual não era aceita pelos outros países da América, que pressionavam o Brasil a abolir a escravatura.
Ao referir-se à  “pressão externa”, não se pode deixar da mencionar o trecho do livro em que José Bonifácio afirma que o absolutismo que D. Pedro I estava promovendo no Brasil era uma forma  inviável de instalar uma monarquia na América, já que  o Brasil estava cercado por recém formadas repúblicas que não admitiam o sistema monarca no Brasil, além do mais com características absolutistas.
Por fim, José Bonifácio conclui dizendo que estas medidas políticas mais a impopularidade de D. Pedro I  provocariam ainda mais crises e revoluções de cunho republicano e separatista, acarretando, portanto, na divisão do território ou/e na mudança do sistema governamental, assim como ocorreu com seus vizinhos da América do Sul e Central.  
Ana Martins – 2ºA
“O Imperador e os Áulicos”
Na carta escrita por José Bonifácio estão presentes várias informações, entre elas a denúncia do golpe de Pedro I na Constituição da Mandioca, na qual prendeu aqueles que a fizeram e impôs outra, criando o 4º poder moderador. Assim, com a nova constituição ficava acima da lei e garantia seu poderio: “Com que fingimento me não quis o imperador assegurar que não aprovava dirigir a imprensa, que era justo e constitucional deixar declamar contra os ministros. E para quê? Porque já então projetava derribar o ministério, e aviltar os homens que lhe tinham posto a coroa na cabeça”.
Bonifácio considerava Dom Pedro I um aprendiz que foi facilmente influenciado, transformando-se num governante traidor, autoritário e imoral. “Tinham-lhe metido em cabeça que assim ficava livre de obrar o que quisesse, sem ver quem lhe fosse a mão; pois o tratava como pupilo, e não como soberano [...]”. Declarou que o imperador foi convencido por outras pessoas (os regressistas caducos) a mandar ele embora já que tinha uma visão democrática e, assim, tornava-se um perigo ao governo de Dom Pedro I.
Pedro I aproveitava a vida de boemia, traindo sua mulher e criando um monstro dentro de si a ponto de espancá-la, explicitando sua atitude grosseira, hipócrita e intolerante, que muitas vezes levava-o a tomar atitudes exageradas e sem fundamento, baseadas em atos brutos para ganhar medo e respeito das pessoas. Essa postura e esses sentimentos apenas feriam a sua imagem.
Por fim, Bonifácio diz que o orientador do imperador era um “cafetão” que fornecia prostitutas a Dom Pedro I e nada de bom fazia à nação. Além do mais, a criação do Conselho de Estado aproximava bajuladores que tinham cargos vitalícios ao poder e apoiavam qualquer ato do imperador, sem questioná-lo. Essa prática dava ao imperador  mais autoridade e poder, como pode ser visto nos trechos: “[...] pouco e pouco (o orientador) lhe ganhou a confiança, que depois aumentou servindo-lhe de alcoviteiro, e capeador das suas intrigas amorosas, passando pelo seu quarto as moças que vinham de noite ao pavilhão” e “Pro forma criou-se um Conselho de Estado dos mais vis instrumentos do absolutismo – tudo emana do imperador e os ministros e o Conselho são máquinas de responsabilidade e plastrons do ódio público”.
A popularidade que Dom Pedro I tinha, assim como os ministros e o Conselho, tornava-se menor pouco a pouco, por conta de atitudes que eram tomadas de formas impensada e insatisfatória para com a população.
Bruna Pitteri e Renata Cagliarani - 2º C
“O mecanismo do interesse destroi os sentimentos honrados e sublimes”
José  Bonifácio é o autor de várias cartas com suas impressões sobre o primeiro Império Brasileiro. Ele foi exilado do Brasil por Dom Pedro I por crer na Constituição e na democracia, indo contra o poder autoritário que viria a se instalar em 1824. Portanto, suas cartas contêm fortes críticas ao modo de governo do Imperador, como percebemos neste trecho “O mecanismo do interesse destrói os sentimentos honrados e sublimes”, nota-se a crítica direcionada à política autoritária e à relação deste com a sociedade.
Nesta carta a crítica se inicia logo, com a frase “Por que razão não tem aberto as Câmaras?”. Sendo uma crítica direta, mas também um questionamento para o qual o autor sabe a resposta:  o medo de eleições, democracia, Constituição que limitasse o poder do I Império do Brasil. Então, a solução foi a instalação do autoritarismo, no ato da “Noite da Agonia” (a dissolução da Assembléia e a prisão de seus participantes).
Entretanto a “Monarquia sem democracia é  a desordem”. O Brasil se encontrava em caos causado pelo poder absolutista, ou seja, as decisões tomadas tinham sempre que ser favoráveis ao governo de acordo com as ambições deste (no caso interesses do Imperador e da elite rural). O resto da população tinha papel de servos, apenas acatando decisões, não podendo influenciar nelas. E quanto mais a população era exprimida e tratada como servil, maior era a indignação e as chances de revolta e escape delas.
O poder autoritário, além de gerar caos, tornava-o cada vez que imposto, mais utilizado e rígido. Em palavras mais simples quanto mais utilizado, mais absoluto tinha que se tornar.
Como o poder era exercido sobre influência dos interesses imperiais, as relações sociais também eram influenciadas pelo mesmo. Os títulos de nobreza, as honras, e a dignidade concedidas, baseavam-se no que seria benéfico para reafirmar o poder de Dom Pedro I, seriam trocas de poderes.
Essa relação dá nome à carta: “O mecanismo de interesse”. Este título refere-se ao fato de o governo ser guiado por interesse e ninguém aceitar nem propor nada sem ganhar algo em troca. Para Bonifácio, esse vício “destrói os sentimentos honrados e sublimes”. Os títulos antes passados de geração para geração e pertencentes à família real junto com o poder, agora estão vinculados a interesse e dinheiro, o que conseqüentemente,  derruba a legitimidade de possuir tais honras.
Como visto no parágrafo acima,  relacionar poder com dinheiro e interesse, ainda é percebido atualmente em plena República com o escândalo de José Sarney. Dono de várias indústrias, muitas vezes acaba considerando o governo como uma delas, emprega seus parentes (nepotismo) e assim como no Império busca o poder político para ganhar mais poder financeiro.
José  Bonifácio em sua carta ainda diz “...apartado do governo a confiança, e destruído a popularidade do chefe” sobre as conseqüências dos inúmeros atos de Dom Pedro I durante todo seu Império como: dissolução desnecessária da Assembléia, modo que impôs a Constituição, demora na abertura de novas Câmaras, despotismo e etc.
Essas conseqüências foram a perda de autoridade do imperador que tinha que ser cada vez mais autoritário, tendo cada vez um papel mais difícil e descontentando cada vez mais a população. Como o governo se guiava em interesse, a confiança da população nele era cada vez menor. O caos instalado no país pelo autoritarismo gerou um caos na vida imperial de Dom Pedro I.
O Imperador orgulhoso demais para admitir erros continua persistindo no ato. A princípio quando declarou a Independência estava impulsionado pela democracia, pela Monarquia Constitucional, mas não  continuando com o ideal e sim o invertendo, aplicando o poder autoritário, perde o governo do Brasil pouco a pouco. Esta é a principal crítica feita por José Bonifácio, que era o braço direito do jovem revolucionário Pedro de Alcântara. Bonifácio sentia por D. Pedro I ter confundido os interesses públicos da nação com os interesses privados das elites e dele próprio
Marcelo e Luiza - 2ºB
 
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