PROJETO LEITURA - ENSINO MÉDIO



As atividades com gêneros textuais, nas aulas de Redação do Ensino Médio, possuem objetivos específicos, todos eles interligados ao objetivo geral estabelecido para o aprimoramento do processo de leitura e produção de textos, proposto pelo COC Vila Yara a seus alunos deste segmento: aprofundar o trabalho realizado no Ensino Fundamental II com os gêneros que desafiam o leitor a analisar, refletir, argumentar, persuadir, enfim, tomar uma posição frente a um tema polêmico e atual.

 

Nessa perspectiva, os alunos do 2º. ano foram estimulados a desenvolverem, neste 1º. bimestre, uma crônica argumentativa e um artigo de opinião. Os alunos do 3º. ano produziram o gênero escolar dissertação argumentativa e analisaram como sua estrutura e organização encontram no editorial (gênero próprio da esfera jornalística) seu correspondente em um texto de circulação extraescolar.

 

Os alunos do 1º. ano iniciaram um trabalho teórico sobre gêneros textuais, estabelecendo a distinção conceitual entre tipos (narrativo, descritivo, dissertativo, argumentativo e prescritivo) e gêneros textuais (conto, crônica, romance...). Como no Fundamental I e II, esses alunos leram e produziram muitos textos do gênero conto e de seus subgêneros (conto popular, de fadas, de mistério...), o início do trabalho com redação enfatizou, como fechamento desses estudos anteriores, o conto de autores renomados no gênero, como o norte-americano Edgar Allan Poe (precursor do gênero), a brasileira Lígia Fagundes Teles e o moçambicano Mia Couto, em seus estilos e características próprios e, muitas vezes, inter-relacionados.

 

Com relação às produções do 1º. ano, apresentaremos alguns textos que ilustram o trabalho com o gênero conto. Após leitura e análise de vários contos, os alunos prepararam-se para uma atividade de produção em etapas: deveriam destacar, dos textos lidos e analisados, os aspectos temáticos, de estilo e os de organização textual que caracterizaram tais textos como do gênero conto. Em uma oficina de ambientação sobre alguns elementos que deveriam constar em suas produções, desenvolveram uma outra etapa do processo: na Praça de Alimentação do colégio (veja as fotos abaixo), foram estimulados pela Professora Carmem a “viverem” o ambiente em que estavam, em seus aromas, formas, cores, sensações. Dessa experiência, deveriam construir, para um conto, uma personagem, um ambiente e iniciar um conflito, sem que fosse explorado em profundidade.

 

A partir da leitura e dos comentários da professora, passaram à etapa final: caracterizarem com mais densidade personagens e cenários e desenvolverem o conflito, com a tentativa de criação de um desfecho surpreendente para o conto.

 

O resultado (alguns exemplares de textos) é o que segue:

 

DESPEDIDA

Sentada em minha mesa, ouvia as risadas e choros que vinham do lado de fora. Queria muito olhar pela janela, mas se o fizesse, sabia que também iria me desmanchar em lágrimas.

Olhei para a sala e lembrei-me dos nove anos que passei nessa escola. Lembrei-me das risadas, dos bons momentos, de minhas dúvidas. Nesse momento, minhas dúvidas tinham aumentado. Como seria minha vida ao sair dessa sala? Agora tudo precisava mudar?

Mas isso não precisava ser um adeus. Os amigos que fiz aqui serão para sempre, assim como tudo que vivi: nada será esquecido. Encararia essa mudança como uma nova fase, na qual novas experiências eu adquiriria: tudo ao lado de pessoas que amava.

Levantei-me e olhei pela janela. Todos estavam ao redor do pipoqueiro, assim como em todas as tardes durante nove anos. Olhei bem para essa cena: era dela que eu iria lembrar todos os dias. Era ela que iria guardar no meu coração.

Julia Izepe Ferreira - 1ºB

 

MAGIA E SAL

 

O sinal que indicava o fim das aulas soou alto por todo o colégio. Os alunos suspiraram aliviados e guardaram suas coisas, cada um com a pressa de sair primeiro. Aos empurrões chegaram à porta da escola, onde havia grande tumulto.

As crianças menores, que haviam saído antes, estavam reunidas na calçada, muito concentradas em algo que ficava fora de vista, devido à multidão. Do grupo se elevavam risos e gritinhos animados.

Ao se aproximar, os outros alunos perceberam que a grande atração era um pipoqueiro, que animava a garotada com truques de mágica. O cheiro de pipoca e manteiga paraiva no ar e a multidão ia à loucura, a cada vez que o pipoqueiro tirava uma pipoca de trás da orelha de alguém.

Terminado o seu show, o pipoqueiro recolheu seus lucros, se despediu e sob uma salva de palmas, guiou seu carrinho de pipocas até o fim da rua. A multidão começou a se dispersar, quando todos ouviram uma voz aguda que os fez parar:

Olhem, olhem! Ele está voando!

Todos se concentraram no garotinho que falava e olharam para onde ele apontava, estarrecido. No céu azul daquela manhã, todos pensaram ver um senhor em seu carrinho de pipocas, desafiando a gravidade.

A multidão acompanhou o pipoqueiro com o olhar, até que ele e seu carrinho não passassem de um ponto escuro no céu. Aos poucos a multidão se desfez. Cada um seguindo seu rumo.

Ninguém sabe dizer se é verdade, mas até hoje circula por ai a história do pipoqueiro mágico que encantava adultos e crianças com seus truques.

Bruna Carolina Fernandes Teixeira - 1° B

 

SOLIDARIEDADE NO DIA DA PIPOCA

 

Sexta-feira, todos cansados da semana, loucos para ir embora... O sinal tocou e o Ensino Médio se dirigiu à saída do colégio, em poucos minutos estaríamos em casa, finalmente!

Logo que desci as escadas, já vi uma certa movimentação e quando cheguei mais perto pude observar muitas crianças. A princípio, não entendi muito bem, mas uma amiga, que estava ao meu lado, me apontou o motivo de toda aquela correria: um pipoqueiro e seu carrinho, lotado daquelas delícias brancas.

Não quis me aproximar para não ser derrubada por crianças com dinheiro e pacotinhos de pipoca nas mãos, por isso fiquei observando-as do outro lado da rua.

Apreciando aquele monte de pequenos cidadãos, uma face chamou não só a minha atenção, mas a de várias pessoas inclusive a do pipoqueiro: uma criança estava triste, chorava e apontava para as demais crianças dizendo:

Mãe, eu quero, por favor! Eu adoro pipoca e todos estão comendo.

Foi quando sua mãe lhe deu um puxão pelo braço e disse:

Nada de pipoca. Nós vamos para casa.

A criança insistiu, mas sua vontade não foi satisfeita.

Sensibilizado, o pipoqueiro chamou o pai de uma criança que estava comprando seu produto, entregou-lhe um pacotinho de pipoca e pegou outro em suas mãos. Juntos, os dois foram até a mãe brava e a criança chorona, e lhes entregaram os dois pacotinhos, um para cada. A criança parou de chorar e abriu um sorriso instantâneo.

O pipoqueiro se abaixou, olhou nos olhos do menino e disse:

Feliz dia internacional da pipoca! – e comeu uma de seu pacote.

A criança agradeceu-lhe. Sua mãe, encabulada e sem graça, agradeceu o pacote, mas o entregou de volta ao homem que havia ajudado o pipoqueiro.

E num instante, a criança cutucou o homem, pedindo o outro pacotinho de pipoca. Ele entregou para a criança, que se virou para sua mãe e disse:

Feliz dia da pipoca, mamãezinha.

Ana Beatriz Gomes de Carvalho – 1º B

 

Os alunos do 3º. ano foram estimulados a se posicionarem frente a temas polêmicos e atuais: a importância da leitura para o brasileiro (tema 1) e o convívio com a diversidade (tema 2). Vale a pena refletirmos sobre o que defendem:

 

Texto 1 – Uma relação a ser modificada (tema 1)

A melhoria da educação no Brasil é um tema muito falado nos meios de comunicação, porém, por muitas vezes ignora-se um dos principais pilares dessa melhoria: a leitura. Ela é importantíssima no processo de aprendizagem, pois além de ampliar o léxico, ela também é responsável pelo aperfeiçoamento da capacidade de criar, de argumentar e do desenvolvimento do senso crítico no indivíduo.

Um dos maiores déficits da educação brasileira é a falta de contato dos alunos com os livros. A leitura deve ser um hábito introduzido pela família ainda durante a infância, por meio e livros que despertem o interesse da criança, tornando essa ação prazerosa.

Tendo esse costume concretizado na infância, a escola seria responsável apenas por reafirmar a importância dos livros e continuar a incentivar esse contato, porém não é assim que esse processo ocorre no Brasil. As famílias brasileiras raramente são adeptas à inserção da leitura na vida dos filhos quando pequenos, e a escola, por sua vez, trabalham a leitura na vida dos jovens por meio da obrigatoriedade, produzindo assim no aluno, a aversão à leitura, que, em geral, permanecerá na sua vida adulta.

Para agravar a situação, o custo dos livros no Brasil é muito alto, dificultando o acesso das classes baixas a eles e criando mais um empecilho ao desenvolvimento desse importante hábito.

A relação entre os brasileiros e os livros só mudará quando o Estado e a sociedade encararem a leitura como algo de extrema importância, tanto na melhoria da educação, quanto na formação de novos cidadãos. O governo, por exemplo, deveria subsidiar o custo dos livros para garantir o acesso de todos a eles, e a sociedade por sua vez, deveria cultivar o hábito de ler dentro de suas famílias, e retirar esse conceito de obrigatoriedade sobre a leitura nas escolas. O Brasil só poderá se desenvolver por completo, quando o Estado passar a investir muito e com qualidade na educação, e repensar o modo como a leitura é tratada pela sociedade brasileira.”

Ana Gabriela – 3º A

 

A aluna inicia muito bem seu texto, apresentando o tema a partir de uma contextualização interessante: a mídia enfatiza a necessidade de melhorias na educação, sem, no entanto, enfocar seu elemento central, a leitura (será esse dado comprovável?). Um dos pontos fortes do texto é, já no primeiro parágrafo, a apresentação da justificativa dessa tese.

 

A autora parte para o desenvolvimento de argumentos estabelecendo uma relação entre a ideia central de seu texto – a leitura como processo essencial de melhoria da educação brasileira – e a participação fundamental da família como modelo e estimuladora para a formação de leitores, desde sua infância. Desse modo, a aluna estabelece co-reponsabilidades para a tão almejada melhoria na educação.

 

Os entraves para que a leitura se construa como um processo de desenvolvimento da cidadania são apresentados: o valor alto dos livros e, mais uma vez, a relação falha entre família-escola, aspecto que poderia e deveria ter sido mais desenvolvido pela aluna, uma vez que se mostra como base de sua argumentação.

 

O que faz o texto novamente ganhar em consistência e coerência é a tentativa de intervenção apresentada no último parágrafo: uma vez identificado o problema, o que fazer para sua possível solução? É o que a autora se propõe a esclarecer, sem inovar, mas privilegiando a manutenção da ideia inicial que desejou desenvolver.

 

Resta uma reflexão para todos os leitores, lançada pela autora ao final de seu texto, e a ser discutida amplamente: por que a obrigatoriedade de leitura deveria ser retirada das escolas? Essa poderia ser uma boa questão para um debate entre os leitores deste texto.

 

Texto 2 – A diversidade cultural e as fronteiras (tema 2)

Embora muitos afirmem que a maioria das fronteiras do mundo foi rompida por conta do avanço tecnológico dos meios de comunicação e a facilidade de deslocamentos, há muitas contradições nas relações entre povos culturalmente diferentes, o que torna muito importante uma análise mais profunda sobre tal afirmação.

Os Estados Unidos, por exemplo, são famosos por seus discursos a favor das diversidades culturais, entretanto representam a nação cujos discursos, politicamente corretos, são, na maioria das vezes, contrários às suas ações. Um exemplo muito claro é o que ocorre em seus aeroportos. Quando se trata de uma pessoa árabe, latino-americana ou africana, a fiscalização feita no embarque se torna um processo muito mais rigoroso do que seria normalmente.

Outro acontecimento recente que deixou explícito o pensamento xenofóbico existente em muitos povos, e não somente nos norte-americanos, foi o que ocorreu com a brasileira Denise Severo. Ao chegar no aeroporto espanhol, a moça foi impedida de entrar no continente europeu e teve de ser deportada para o Brasil, sem que lhe fosse dada nenhuma justificativa. Ela ainda relata que, na sala onde permaneceu por quinze horas sem saber o que estava acontecendo, só havia árabes, latinos e afrodescendentes aguardando, também, para que fossem deportados sem explicação plausível.

Os dois exemplos dados acima valorizam a relação entre povos de diferentes países, especialmente entre os de “primeiro mundo” e “terceiro mundo”. Pode-se perceber, porém, que essa falta de respeito às diferenças culturais encontra-se dentro de uma mesma nação.

No Brasil, a variedade cultural é tão vasta que chega a ser um dos símbolos do país, não obstante é muito comum ouvir na região sudeste comentários depreciativos sobre os costumes e hábitos nordestinos.

Não que seja ruim esse choque entre civilizações diferentes, afinal é um mecanismo de defesa de todos os seres vivos se amedrontar com o diferente, mas isso não significa que por lhe ser estranho deva ser repelido ou tratado de modo desigual, como geralmente se vê nos encontros humanos.

O homem pode, sim, ter ultrapassado e destruído muitas fronteiras que dificultavam um elo entre todos os grupos humanos, mas esses elos só serão reais quando todos os preconceitos entre as culturas foram, definitivamente, eliminados.”

Julia Tamie Kussano – 3ºB

 

Belo início! Muito se defende sobre a quebra de barreiras e fronteiras promovida pelos avanços tecnológicos... mas, se é fato tal fenômeno, como justificar as contradições que persistem quando o foco é cultura? Esse é o questionamento proposto pelo texto.

 

A resposta estaria nos deslocamentos físicos (ou na impossibilidade de) e o que refletem - em discursos e ações – com relação à xenofobia? É o que propõe como discussão a autora do texto em análise. Para defender sua ideia, utiliza dois exemplos, descritos em prol da argumentação, e complementados com uma menção à realidade brasileira, aspecto que deveria ser explorado ou, então, não incluído no parágrafo, uma vez que foi só mencionado em um parágrafo muito próximo à conclusão (não devemos esquecer que dados novos não devem ser apresentados próximos à conclusão; devem, sim, ser devidamente desenvolvidos para conferir consistência à argumentação).

 

A tentativa de retomada da tese no último parágrafo é louvável. Faltou persuadir o leitor de como todos os preconceitos poderiam ser definitivamente eliminados. Seria isso possível? Como? Mais uma questão para se debater.

 

E assim se organizam as aulas de Redação do 3º. ano do Ensino Médio: temas debatidos em sala pelo Professor Veronese, que faz indicações de leitura, a cada aula, das mais diversas fontes para enriquecimento informacional e argumentativo dos alunos; textos organizados sob orientação da Professora Márcia e corrigidos por ela e/ou por uma corretora externa, Jacqueline. Assim, os alunos vão se familiarizando com o modo como se estruturam as bancas de correção de redações de exames vestibulares: com múltiplos olhares.



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